Como a minha avó me ensinou a empreender

No dia 02 desse mês foi o aniversário de uma pessoa muito importante pra mim: a Angelina Maria da Silva, minha avó materna. E hoje (sim, estou atrasado, desculpe, vó!) eu quero falar um pouco sobre quem ela e sua importância aqui na Doppel.

Minha avó nasceu no dia 02 de outubro de 1933, em Ouro Fino. Neta do italiano Antonio Labrozzi, que chegou ao Brasil em 1889 vindo da província de Chieti. Assim como a maioria dos imigrantes – se não todos – a miséria era muito presente no início da minha família aqui em terras brasileiras. A infância da minha avó foi bastante sofrida e triste. Ela cuidava dos irmãos e nunca foi à escola porque, na visão de seu pai, mulher deveria ficar em casa cuidando da família. Seus irmãos, que podiam estudar, aprenderam a ler e escrever na escola e ensinaram ela em casa.

Em algum momento dos anos 50 toda a família foi de Ouro Fino até Pinhalão, norte do Paraná, e lá se estabeleceram. Foi lá também que minha avó se casou com meu avô, Otacílio Borges da Silva, e dessa união nasceram 13 filhos.

A vida na roça de Pinhalão não era fácil. Meus avós eram muito pobres, mas todos meus tios puderam frequentar a escola até o ensino médio. Daquele jeito: caminhar com os pés descalços para a aula, um saco de arroz para colocar o pouco material que havia para ser levado, carne só uma vez por mês e o mesmo par de roupas a semana toda. A realidade de muitos brasileiros hoje em dia… 😦

Minha avó sempre foi bastante empreendedora e é aqui que começa a influência dela na Doppel: no pequenino pedaço de terra que eles tinham em Pinhalão, minha avó plantava algumas verduras e as vendia para os vizinhos. Além disso, era ela quem controlava todo o pouco dinheiro que entrava na casa.

Nos anos 80, a minha família toda começou a vir aos poucos para Curitiba em busca de uma vida melhor. Foi com o financiamento da COHAB (Companhia de Habitação Popular de Curitiba) que tiveram a primeira casinha aqui. O bairro, distante do centro, tinha sido recém loteado e nem asfalto tinha. Hoje é um dos maiores de Curitiba.

A vida melhorou um tiquinho com a mudança e minha avó continuou aqui sua veia empreendedora. Ela fazia pão, sabão e crochê para complementar a renda da família. Meu avô faleceu antes do meu nascimento – eu nasci em 96 e ele se foi em 92 – e com a ausência dele o papel da minha avó como chefe de família ficou mais forte ainda.

Ela era bastante evangélica, daquelas bem fundamentalistas, uma herança da sua criação tradicional. Ela também herdou alguns preconceitos e aterrorizava as filhas dizendo que não aceitaria uma mãe solteira em casa. Quis o destino, no entanto, que minha tia e minha mãe acabassem sendo mães solteiras, ambas abandonadas pelos pais das crianças. E a minha avó, cumpriu o que prometeu? Jamais. Ela cuidou das filhas e dos netos. Ela deu o maior carinho para todos e jamais tratou mal as filhas por terem sido abandonadas. Nos acolheu em sua casa e sustentou toda a família com o dinheiro do sabão, do crochê e do pão que fazia. No final, o amor venceu o ódio e a família foi maior e mais importante que o preconceito.

Eu com 4 anos.

São poucas as fotos que eu tenho com a minha avó. A minha família não tinha muito dinheiro, então fotografias eram luxo

A partir dos meus 7 anos, eu comecei a ajudar a minha avó nos afazeres dela: algumas manhãs batia o sabão, noutras amassava o pão ou organizava o material do crochê. De tarde, eu carregava uma cesta e ela outra, cheia de produtos, andando pelo bairro e batendo de porta em porta. Minha vó era ótima no atendimento: conversava com as clientes, era convidada para entrar, tomava um cafezinho, lavava a louça… O pão de forma era vendido a 1 real, lembro até hoje! Foi assim que eu entrei em contato pela primeira vez com o empreendedorismo. Minha mãe também me ajudou muito, ela tinha uma barraquinha de cachoro quente… mas essa história eu conto em outro e-mail.

Essa foi a minha avó: Angelina Maria da Silva. Eu queria que você soubesse que existiu em minha vida uma mulher forte que superou todas as dificuldades de ser uma moça pobre em um mundo cruel. Ela conseguiu criar os 13 filhos, dar amor para seus netos e ainda empreendia para sustentar a casa.

E eu digo foi, no passado, porque infelizmente ela nos deixou em 2008 – 5 anos antes da ideia da Doppel aparecer na minha cabeça. Ela tinha pressão alta, diabetes e há 3 anos lutava contra o Alzheimer. No hospital, ela estava rindo e conversando em sua última noite. A foto abaixo foi a última que tiramos dela.

E é nisso que eu acredito, que pessoas anônimas ou pouco conhecidas, que fizeram coisas grandiosas – mesmo dentro do seu limitado microcosmos – sejam reconhecidas e lembradas. Por isso eu fiz a coleção das mulheres na ciência, e por isso eu vou fazer a dos cientistas brasileiros. Eu não quero que essas pessoas sejam esquecidas, porque cada vez que elas são lembradas, o legado delas se torna o nosso legado e isso nos ajuda a superar as dificuldades e fazer um mundo melhor.

Segundo a crença da minha avó, após a morte as pessoas vão para o paraíso ou inferno e, com a vida que teve, tenho certeza que ela merece o paraíso perfeito que sonhava.

Eu não compartilho da mesma crença, mas penso que nós seguimos vivendo através das nossas ações, do nosso legado. Vivemos, de certa forma, na transformação que criamos no mundo e na vida das pessoas que tiveram a oportunidade de compartilhar nossos breves momentos neste pálido ponto azul que chamamos de lar.

Minha avó segue viva através da influência que teve – e até hoje tem – na vida dos seus filhos e netos. Ela permanece viva para mim, na minha vida pessoal e na Doppel, como um exemplo a ser seguido, mesmo tendo passado mais de dez do seu falecimento.

A matéria que compunha o seu corpo, forjada no coração das estrelas, reintegrou-se ao ciclo da vida, alimentando a grama e as árvores do belo cemitério em que foi enterrada. Já a sua história e personalidade estão para sempre entrelaçadas com a história da minha vida. Em certa medida, o legado de Angelina Maria da Silva está também vivo em cada um de vocês que leu até aqui e se permitiu absorver os bons exemplos que ela nos deixou.

Muito obrigado por serem parte desta história, da história do legado da minha avó, da história da Doppel e claro, da minha história.

E pra finalizar, eu quero anunciar que a Black Friday nesse ano será uma Black Week, começando no dia 24 e terminando no dia 30! Fiquem ligados nos próximos e-mails porque vou dar spoilers do que vai acontecer 🙂

Um grande abraço
Igor

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