O bagre que só existe no brasil

No PETAR (Parque Estadual Turístico do Alto Ribeiro), existe um peixinho exclusivamente brasileiro: O bagre-cego de Iporanga (Pimelodella kronei). Ele foi o primeiríssimo peixe de caverna a ser descoberto e então descrito no Brasil. Animais dessa espécie não possuem pigmentação, tendo muitas vezes olhos atrofiados, invisíveis da parte externa do corpo ou até mesmo inexistentes. Eles vivem em ambientes onde não há qualquer luz.

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Exclusivo

Até o momento, essa espécie é considerada endêmica, sendo encontrada somente dentro das cavernas do PETAR. Sabemos que existem animais também nomeados pela população como “bagres-cegos” em outras cavernas do Brasil e do mundo, mas são espécies diferentes da encontrada no PETAR.

O PETAR está localizado no território dos municípios de Iporanga e Apiaí, no Vale do Ribeira, a 330 km da capital paulista. A reserva possuia a segunda maior concentração de cavernas do Brasil, com total de 521 formações cavernícolas das 718 cadastradas no estado de São Paulo.

O fato de que o bagre-cego existe somente ali fez dele o animal símbolo do local, único para a população e para os cuidadores do parque. Assim, ele se tornou parte do PETAR através de sua marca:

O logotipo oficial do PETAR apresenta um bagre cego em destaque.

Mas o que é o PETAR?

Vista do PETAR a partir de um mirante localizado na trilha para a Caverna Temimina. Foto: Evandro Monteiro

O Parque Estadual Turístico do Alto Ribeira foi inaugurado em 1958 com a finalidade de conservar os patrimônios paleontológico, espeleológico, arqueológico e também a biodiversidade geral:  situado no maior contínuo de Mata Atlântica preservada do Brasil, o parque possui uma área de 35.884,28 hectares e reúne áreas dos municípios de Guapiara, Apiaí e Iporanga.

Os núcleos de Santana, Caboclos, Ouro Grosso e Casa de Pedra podem ser visitados pela população. A caverna onde estão os bagres, entretanto, não pode ser visitada devido à raridade da espécie.

Entrada da Caverna Temimina, PETAR. Foto: Evandro Monteiro

Um das cavernas do PETAR, a Temimina.

Ambientes cársticos

As cavernas do PETAR são espaços cujo ecossistema é delicado. São cavidades rochosas originadas a partir de uma série de processos geológicos que formam um conjunto de espaços interconectados. Entretanto, não há luz permanentemente, fora a estabilidade ambiental e umidade relativa próxima a da saturação (100%). Algumas são cortadas por cursos-d’água, que, conforme o regime de chuvas, podem isolar o local com água.

Nessas condições de isolamento, é comum que os animais se especializem e se diferenciem dos demais para poder sobreviver, evoluindo e adaptando-se às peculiaridades do espaço.

Vivendo nas cavernas

Bagre cego encontrado na caverna Areias de Cima, PETAR. Foto: Jurandir Aguiar

Ali existem, então, três grupos de animais:

Trogloxenos: Os principais animais desse grupo são os morcegos, que utilizam a caverna somente como abrigo temporário, quando precisam se reproduzir ou se alimentar. Saem do espaço cárstico para realizar outras atividades mas exercem um papel importante para as demais espécies, trazendo sementes e fragmentos de folhas em suas fezes para o local.

Troglófilos: vivem tanto dentro, como fora da caverna, mas não possuem órgãos especializados. São adaptados para viver na caverna, mas também vivem bem do lado de fora. Existem aracnídeos, pequenos crustáceos, insetos e mesmo peixes que pertencem a esse grupo. No PETAR, há o mandi-chorão (Pimelodella transitoria), um peixe noturno, que não depende da visão e tem condições de viver fora ou dentro da caverna. Quanto à alimentação, é preciso ser um animal oportunista e muito flexível em sua dieta. Assim, eles são onívoros.

Troglóbios: animais especializados e adaptados á vida dentro da caverna. A maior parte deles não possui pigmentação e pode ter olhos atrofiados ou ausentes. Possuem órgãos olfativos muito sensíveis ou longas e numerosas antenas. Alguns tipos de insetos, crustáceos, anelídeos, aracnídeos e o bagre-cego se encaixam nesse grupo.

Como se alimentam?

Dentro da caverna, a ausência de luz impossibilita a existência de animais orientados pela visão e de organismos fotoautotróficos (aqueles que obtêm seus nutrientes com a ajuda da luz do sol – como algas, plantas e cianobactérias desse gênero). Isso resulta em um ambiente definido pela escassez alimentar. Os nutrientes existentes ali muitas vezes vêm da área externa, incluindo detritos e matéria orgânica trazida pela água para dentro da caverna, tais como esporos, bactérias, fezes de morcegos (guano), animais mortos ou outras pequenas espécies residentes na caverna (insetos, crustáceos, aracnídeos, anelídeos).

No cenário de falta de comida, os troglóbios tornaram-se animais com hábitos alimentares onívoros, oportunistas e que não se orientam pela visão para poderem encontrar o alimento. Também caracterizam-se por terem metabolismo lento e consumirem menos oxigênio. Assim, sobrevivem mais tempo em condições de escassez.

Mais informações

Os bagres cegos são animais adaptados para viver em ambientes cavernícolas. Foto: Jurandir Aguiar

De acordo com estudos, os bagres-cegos parecem se guiar pelo olfato para encontrar parceiros para reprodução.

A estimativa de longevidade média de seus indivíduos é de 15 a 20 anos e eles podem atingir em torno de 20 centímetros.

A falta de visão e de pigmentação melânica não faz falta no ambiente cavernícola: ambos só são úteis se houver luz. Nesses espaços, desvantagem real é não ter antenas, um olfato apurado ou não ser capaz de se guiar por algo além da visão.

Lugar de conservação

A caverna denominada Areias de Cima concentra a maior população de bagres-cegos do PETAR e seu acesso é restrito desde a década de 1980. O tipo de animais em geral que ali vive, os Troglóbios, também a fazem ambiente para visitas apenas especializadas: qualquer alteração geológica ou invasão de algum outro animal por descuido poderia arruinar o ambiente.

Pesquisa pioneira

O primeiro estudo brasileiro sobre genética evolutiva de um animal de caverna foi feito pelo geneticista Crodowaldo Pavan em 1945. Já o estudo completo sobre os bagres é bem mais novo, e está no artigo online “Ecologia populacional do bagre cego de Iporanga, Pimelodella kronei (Siluriformes: Heptapteridae), do Vale do Alto Ribeira, Iporanga, SP: uma comparação com Trajano, 1987”.

Fonte: Governo do Estado de São Paulo

 

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