O lítio que moverá a Bolívia

Com a demanda crescente por baterias eficientes, a Bolívia sonha com a riqueza que o lítio presente sob um enorme deserto de sal pode gerar. Mas será que os bolivianos serão beneficiados?

Enquanto a população indígena aimará recolhe e vende o sal incrustado na superfície do Salar de Uyuni, o lítio, bem mais valioso, está dissolvido na salmoura acumulada nas profundezas.

O negócio que interessa Álvaro García Linera, o vice-presidente da Bolívia,  gira em torno do lítio. Um metal indispensável para o atual mundo movido a baterias, o lítio é “crucial para o futuro da Bolívia”, assegura o vice-presidente. Em sua estimativa, daqui a meros quatro anos o lítio vai se tornar o motor da economia. Todos os bolivianos vão ser beneficiados, acrescenta ele, pois a exploração do metal lhes permitirá “sair da pobreza e capacitá-los em áreas científicas e tecnológicas de modo que possam participar da elite intelectual na economia global”.

Todavia, como bem sabe García Linera, nenhuma proposta de usar o lítio como salvação econômica da Bolívia é possível sem levar em conta o local de origem desse metal: o Salar de Uyuni. Esse deserto de sal, com cerca de 10.500 quilômetros quadrados, e uma das paisagens mais deslumbrantes do país, quase certamente vai ser alterado – se não irremediavelmente avariado – pela mineração do metal que jaz sob a sua superfície.

Tanques de evaporação formam um mosaico na usina-piloto de processamento de lítio em Llipi. As instalações começaram a produzir carbonato de lítio em 2013. A salmoura rica em lítio é bombeada para os tanques a partir de até 20 metros de profundidade. Em pleno funcionamento, a usina precisaria de duas centenas de tanques.

A viagem de carro desde a capital mais alta do mundo até o deserto de sal tem a duração de quase um dia  – uma excursão rodoviária pelo país mais pobre da América do Sul. Saindo de La Paz até El Alto, vê-se o baluarte do segundo maior grupo indígena do país, os aimarás. Nas sete horas a partir desse ponto, a estrada é uma descida constante até nivelar numa altitude de 3 600 metros, por uma extensão de Cerrado quase despovoada, só de vez em quando animada por lhamas e suas primas ágeis, as vicunhas.

Chega-se ao salar, o termo em espanhol para “deserto de sal”, pouco antes do pôr do sol. Por cerca de 2 quilômetros, é possível dirigir pela superfície lisa até ficar evidente que não há mais nada em volta. O frio é cortante e, ainda assim, a paisagem é alucinante: quilômetros e quilômetros de terreno todo branco, incessantemente nivelado, sua aridez arrematada pelo céu azul sem nuvens e, ao longe, os picos andinos avermelhados. Motocicletas e veículos de tração especial cruzam a superfície alva sem caminhos delimitados, rumo a destinos desconhecidos. Aqui e ali, indivíduos solitários cambaleiam, como se estivessem num estupor pós-apocalíptico, contemplando o que o vice-presidente boliviano chama de “o infinito tabuleiro branco”.

Incahuasi, a “Casa do Inca”, na língua quéchua, era uma ilha no passado, quando havia ali um lago. Resquício de um vulcão, hoje o local está recoberto de cactos e algas fossilizadas. A extração de lítio do subsolo do deserto de sal certamente vai alterar a rara paisagem.

Em algum ponto no horizonte, invisíveis, tratores fazem a manutenção dos tanques de evaporação do deserto de sal. Porém, sabemos que sob o maior deserto de sal do mundo há outra maravilha, uma valiosa reserva com talvez 17% de todo o lítio do planeta. E a exploração desse depósito é considerada pelo governo da Bolívia – um país no qual 40% da população vive abaixo da linha de pobreza – um caminho para sair do seu beco de infortúnios.

A Bolívia continua presa aos grilhões do passado. O primeiro aimará a ser presidente, Evo Morales, eleito pela primeira vez em 2006, mencionou no seu mais recente discurso de posse “os 500 anos que sofremos” em consequência do colonialismo espanhol – um regime brutal de escravização e expurgo cultural. Desde então, a geografia e o desgoverno conspiram para frustrar a reinvenção do país. As perspectivas econômicas da Bolívia sofreram um duro golpe quando, em 1905, teve de ceder o seu litoral no Pacífico após perder uma guerra com o Chile. Enquanto países vizinhos, como o Brasil e a Argentina, foram se tornando mais prósperos, a Bolívia viveu décadas de golpes militares e de corrupção. As duas principais populações indígenas, os quéchuas e os aimarás, continuam relegados à condição de cidadãos de segunda classe pela elite dominante de ascendência europeia.

Um trabalhador verifica se o carbonato de lítio está seco, na etapa final antes de o produto ser embalado em sacos. Administrada pelo Estado, o projeto tem cerca de 250 empregados, que usam macacões vermelhos e moram ali, em casas pré-fabricadas. Centenas de outros trabalham ficam em obras e em serviços na usina.

Em resumo, a Bolívia é um país marcado pela autoestima precária e pela falta de um sentido compartilhado de destino nacional. A sua história econômica caracteriza-se por incessantes ciclos de crescimento e declínio bruscos. Ainda que isso seja comum em nações dependentes de recursos naturais, outros países da América Latina – por exemplo, o Chile – conseguiram administrar tais recursos de forma competente. Em sua ânsia por lucros rápidos, mas transitórios, os governos bolivianos muitas vezes acabaram por abdicar do controle de seus minérios em favor de empresas estrangeiras. Como disse o vice-presidente em entrevista, “ao longo da nossa história, não desenvolvemos nenhuma cultura capaz de conciliar matérias-primas e pensamento inteligente. O resultado é um país com abundantes recursos naturais, mas muito pobre em termos sociais”.

Entre os países latino-americanos, a Bolívia permanece com uma história volátil e pouco memorável. O papel secundário que desempenhou em Butch Cassidy poderia ser visto como metáfora dessa condição de semianonimato. Nesse filme de 1969, hoje um clássico, a Bolívia era o sonolento refúgio de dois ladrões de banco americanos. Glamourizados por Hollywood, os fora da lei simbolizam algo menos romântico na Bolívia – a impiedosa espoliação de seus recursos por gringos vindos de nações bem mais ricas.

Um trem crivado de balas que a dupla teria roubado é uma atração turística de Pulacayo, um fantasmagórico vilarejo mineiro – as minas foram fechadas em 1959. O fim do povoado foi um golpe para Uyuni, um centro de distribuição de minério a cerca de 20 quilômetros dali. Todavia, na década de 1980, enquanto pesquisava eventuais atrações que pudessem rivalizar com o Lago Titicaca, um agente de turismo de La Paz – Juan Quesada Valda – chegou ao salar.

José Edmundo Arroyo, um peão que trabalha na usina-piloto de lítio, encerra o seu turno. Por enquanto, a população indígena local teve apenas benefícios modestos com a usina, cujos trabalhadores foram contratados em La Paz e Potosí.

Até então, o deserto de sal era visto pelos bolivianos como pouco mais que uma anomalia geográfica. “As pessoas temiam que, se andassem por ali, acabariam por se perder, morrer de sede”, explica Patricio Mendoza, o prefeito de Uyuni.

Quando viu o Salar de Uyuni, Juan Quesada teve um estalo, conta a sua filha, Lucía. “Lagos existem por toda parte, mas um deserto de sal não se acha em nenhum outro lugar no mundo”, diz ela. Formado em arquitetura, Juan Quesada iniciou a construção da primeira de várias pousadas, erguidas quase só com blocos de sal, no vilarejo de Colchani. Aventureiros de outros países começaram a afluir. Casamentos, aulas de ioga e corridas de carros foram organizadas ali. Hoje, as pousadas estão lotadas, ao passo que Uyuni virou um centro cheio de pizzarias e de mochileiros. “Quase 90% da nossa economia têm a ver com o turismo”, diz o prefeito da cidade.

Tudo isso para dizer que, na longa e taciturna história de decepções econômicas da Bolívia, o Salar de Uyuni constitui uma exceção feliz, ainda que modesta. Mas, agora, vem chegando o futuro do país, sob a forma do lítio: A central-piloto de exploração do material está pronta e funcionando, e a a empresa de energia sustentável ACI Systems (de Baden-Württemberg) e a turíngia K-Utec (de tecnologia de sais) ganharam a concorrência para o megaprojeto e começaram seu investimento bilionário para o mesmo. A parceira visa o desenvolvimento sério e sustentável no Salar, visando não repetir a história.

Será que o preço da exploração do Salar vai ser sentido pelos bolivianos de forma positiva? Só o tempo dirá.

 

Fonte: National Geographic e El País 

 

 

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