Como a Primeira Guerra Mundial influenciou O Senhor dos Anéis?

Acredita-se que a Primeira Guerra Mundial teve o maior número de escritores ativos, artistas e músicos de qualquer guerra na história, muitos dos quais fizeram parte das estimadas 9 milhões de baixas militares.

Influenciados por suas experiências, no entanto, alguns dos que tiveram a sorte de sobreviver criaram trabalhos notáveis, dos quais O Senhor dos Anéis, de J.R.R. Tolkien, continua sendo um dos mais influentes e conhecidos.

Reunimos aqui algumas influências da guerra no trabalho de Tolkien:

A Guerra na Térra-média

Tolkien tinha 22 anos e estudava a língua inglesa em Oxford quando a Primeira Guerra Mundial explodiu. Após terminar sua graduação, ele foi enviado para a linha de frente em Somme pelas forças armadas britânicas e pôde presenciar os horrores da guerra por si mesmo. Ele perdeu amigos e foi, na verdade, um dos sortudos a voltar para sua terra.

Considerando o período em que Tolkien começou a escrever as histórias da Terra Média, (durante uma estadia no hospital para se recuperar da febre das trincheiras) é fácil traçar um paralelo entre a guerra na Europa e a própria guerra pela Terra Média: Duas forças maiores, opostas, lutando pela predominância em um território.

Essas colocações muitas vezes levam pesquisadores e fãs a colocar O Senhor dos Anéis com uma alegoria para essa guerra, mas a verdade é que a história vai muito além do que esta afirmação simplista. O próprio autor não se alegrava com essa colocaçãos, tendo criado um trabalho extremamente mais complexo. Porém, J.R.R. admitiu ter sido influenciado pela primeira guerra, tomando como exemplo as privações de Frodo e Sam em sua jornada até Mordor. O autor também negou paralelos com outras guerras, como a Segunda.

Máquinas e Monstros

Espectros do Anel do Senhor dos Anéis (em cima) e soldado da cavalaria alemã na Primeira Guerra Mundial

A Primeira Guerra Mundial viu a invenção do tanque e o desenvolvimento da metralhadora e do lança-chamas. Tolkien teria visto pessoalmente o poder devastador dessas máquinas em meio à batalha e ao barulho das trincheiras.

Em O Senhor dos Anéis, o gigante e com feições de elefante Mûmakil, ou Olifante, é descrito como um “morro em movimento coberto de cinza”, cortando tudo em seu caminho como tanques. Fora os cavalos de Rohirrim com medo de ir a qualquer lugar perto deles.

Ainda um exemplo mais literal desta ascensão das máquinas pode ser visto em uma história muito antiga da Terra-média, A Queda de Gondolin, escrita enquanto Tolkien estava no hospital se recuperando da febre das trincheiras.

Na história, o lorde das trevas Morgoth sitia a cidade élfica de Gondolin com enormes máquinas destrutivas na forma de serpentes e dragões, semelhantes aos monstruosos tanques da Frente Ocidental.

Os gritos dos Nazgûl

Nos campos de batalha da Primeira Guerra Mundial, a névoa e os vapores obscureceriam os cavaleiros, mas não os cavalos, e as máscaras de gás distorceriam sua capacidade de fala e de cheiro.

Os Nazgûl de Tolkien, ou Espectros do Anel, em comparação, estão envoltos em pesados ​​mantos negros para disfarçar sua forma verdadeira (se invisível), farejam as pessoas e o ar enquanto procuram pelo Anel.

Seus gritos também são semelhantes ao som de granadas de artilharia que voam pelo ar antes de explodirem. O efeito psicológico que a artilharia produz nos soldados (shell shock ou trauma de guerra) é comparável ao efeito dos gritos de Nazgûl.

Tolkien tem uma fala sobre os gritos dos Espectros do Anel: “Até os fortes de coração se jogavam no chão enquanto a ameaça oculta passava por eles, ou ficavam de pé, deixando suas armas caírem das mãos sem força enquanto em suas mentes brotava escuridão, e eles não pensavam mais em guerra, mas apenas em se esconder, engatinhar e em morrer”.

Sam Gamgee e os soldados

Sam Gamgee (à esquerda), o batman de Frodo, com o equipamento de cozinha preso à mochila.

A experiência de guerra de Tolkien deixou-o com “uma profunda simpatia e sentimento pelo simples soldado dos condados agrícolas”.

Ele baseou o personagem de Samwise Gamgee em soldados comuns que ele conheceu durante a guerra, homens que mantiveram sua coragem e alegria mesmo quando não havia muita razão para ter esperança.

Oficiais como Tolkien eram geralmente homens de uma classe social alta, independentemente de terem alguma experiência militar. Eles eram frequentemente designados a um soldado de posto mais baixo que cozinhava, limpava e lavava seus uniformes.

Os oficiais e esses homens, conhecidos como batmen, frequentemente formavam fortes laços. Não era incomum, caso o oficial fosse sido morto na frente de batalha, encontrar seu batman morto ao lado dele.

Tolkien foi muito afetado por esses relacionamentos e os usou para moldar o vínculo entre Frodo e Sam. Os Baggins tinham uma posição social mais alta no Condado do que os Gamgee, e ao longo dos livros Sam se dirige a Frodo como “Mestre” ou “Sr. Frodo”.

“Meu Sam Gamgee é de fato um reflexo do soldado inglês, dos soldados e batmen que eu conheci na guerra de 1914″, disse Tolkien.

Sam carrega a sua e a maioria das mochilas de Frodo em sua jornada, ele cozinha e limpa para ambos e protege Frodo ferozmente. No final da narrativa há um grande amor entre Frodo e Sam por terem ajudado um aos outros a sobreviver aos horrores do Anel.

O hobbit em estado de choque

“Não há como voltar atrás. Embora eu possa ir ao Condado, ele não será o mesmo; pois eu não serei o mesmo. Estou ferido com facas, ferroadas e dentes, e um grande fardo.” – Frodo Bolseiro
O trauma de guerra (ou estresse pós traumático) foi predominante entre os homens de ambos os lados na Terra de Ninguém e, ao final do conflito, cerca de 80.000 soldados britânicos foram tratados com a doença. Os sintomas incluíam alucinações vívidas e pesadelos, revivendo eventos traumáticos, ansiedade e depressão, entorpecimento emocional e mudanças na personalidade.

Tolkien estaria bem ciente desses efeitos no tempo em que esteve no hospital e na linha de frente. Ele apresenta uma visão compreensiva em O Senhor dos Anéis, afligindo Frodo com a condição enquanto carregava o Anel e depois de o ter destruído.

Mesmo antes de chegar a Mordor, Frodo experimenta uma súbita cegueira temporária em algumas ocasiões, um sintoma comum do estresse pós traumático, e à medida que se aproxima da Montanha da Perdição ele experimenta uma perda de paladar e olfato, tremores incontroláveis, exaustão e crises de ansiedade.

Pacifismo e retirada

Após seu retorno ao Condado, uma mudança na personalidade de Frodo se torna cada vez mais evidente. O Condado é invadido por bandidos e enquanto Merry e Pippin chamam os hobbits para o combate, Frodo se recusa a participar e insiste que ninguém seja ferido ou morto.

Soldados traumatizados, incluindo o poeta Siegfried Sassoon, muitas vezes se tornaram pacifistas depois da guerra. Muitos também começaram a perder o interesse por coisas que antes consideravam agradáveis ​​e isolaram-se da sociedade como forma de se protegerem de lembranças de suas experiências traumáticas.

Enquanto Merry, Pippin e Sam se reintegram com sucesso na vida da Shire, Frodo se retira discretamente e é atormentado por terríveis flashbacks e pesadelos. O hobbit encontraria a paz apenas se afastando de todo aquele cenário, quando finalmente parte para as Terras Imortais.

 

Fonte: BBC

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Crie um site ou blog no WordPress.com

Acima ↑

%d blogueiros gostam disto: