Mamíferos primitivos se escondiam de dinossauros no escuro, e isso alterou seu DNA

E tudo isso tem a ver com um peixe! Mas como?

Além da visão, o peixe cavernícola cego somaliano perdeu sua capacidade de autorreparação de danos ultravioletas. Ele compartilha essa particularidade genética com mamíferos placentários, o que pode sugerir que ambos se adaptaram da mesma forma à vida no escuro.

Os primeiros MAMÍFEROS surgiram há cerca de 160 milhões de anos, em um mundo dominado por répteis. E agora os cientistas sugerem que se esconder dessas criaturas aterrorizantes no escuro pode ter deixado uma marca observada até hoje nos genes dos mamíferos.

Na época, a maioria dos mamíferos era menor que um esquilo, e seria muito mais seguro sair apenas à noite, evitando, assim, se tornar presa fácil.

Um novo estudo publicado no periódico Current Biology sugere que viver a maior parte do tempo no escuro por milhões de anos poderia explicar como os mamíferos perderam uma habilidade sensível à luz de que dispõem quase todos os outros seres vivos.

No DNA de uma tartaruga, uma orquídea, um coral e até uma bactéria, existe um grupo peculiar de genes que permite que esses organismos reparem danos causados por um tipo de luz solar com energia absorvida por meio de outro tipo de luz solar.

É como um painel solar que é prejudicado e recuperado pelo sol na mesma medida.

É um truque útil e eficiente chamado pelos cientistas de fotorreativação. O que é estranho é que, embora a fotorreativação seja comum nos seres vivos, os seres humanos não a possuem.

Muito menos o restante dos mamíferos placentários, um grupo que possui membros como os cachorros, os gatos, o glutão e as baleias.

O gargalo noturno

Como é possível termos perdido uma estratégia evolucionária tão vantajosa a ponto de ser encontrada em todos os demais seres vivos pesquisados pelos cientistas? É culpa dos dinossauros — ou, pelo menos, de como eram assustadores.

Todo o tempo em que passaram no escuro, quando a maioria dos dinossauros não estava em atividade, pode ter afetado a evolução dos mamíferos placentários. Os cientistas chamam essa teoria de “gargalo noturno” e ela é confirmada por diversas peculiaridades dos mamíferos como o formato de nossos olhos, a composição de nossas retinas e nossos sentidos aumentados de olfato e audição — todas essas características indicam um longo histórico de vida no escuro.

“Claro que é impossível comprovar o gargalo noturno sem construir uma máquina do tempo”, afirma Nicholas Foulkes, zoólogo do Instituto Karlsruhe de Tecnologia na Alemanha.

No entanto, Foulkes e seus colegas alegam ter encontrado novas evidências que confirmam a teoria do gargalo. Em seu novo estudo, os autores informam a descoberta de outro animal que parece ter perdido a capacidade de reparação de seu DNA por fotorreativação.

O interessante é que não é nem sequer um mamífero, mas sim um peixe minúsculo sem olhos.

Escuridão, minha velha amiga

Passaram-se aproximadamente três milhões de anos desde que um peixe cavernícola cego somaliano viu pela última vez o sol. Isso porque as águas que ligavam esses animais à superfície secaram há muito tempo e tiveram que se adaptar a uma vida totalmente subterrânea em cavernas submersas.

Atualmente, os peixes cavernícolas parecem criaturas fantasmagóricas brancas e rosas, menores que uma barra de cereais. No lugar dos olhos, resta apenas uma simples camada de pele.

É evidente que essa não é a única singularidade desse peixe cavernícola. Embora o peixe cavernícola cego somaliano ainda possua os genes necessários para fotorreativação, ele não é mais capaz de ativá-los.

Quando a equipe de Foulkes expôs embriões de peixe cavernícola à radiação ultravioleta como aquela produzida pelo sol, eles morreram a índices maiores que o grupo de controle de embriões de peixe-paulistinha, que, ao que parece, possuíam ao menos capacidade de reparação parcial. Os cientistas testaram ainda células individuais de ambos os peixes, constatando uma vez mais que as células do peixe-paulistinha podiam se recuperar após exposição ao ultravioleta, ao passo que as células do peixe cavernícola não contavam com a mesma capacidade.

“Nosso trabalho demonstra o alcance disso”, afirma Foulkes. “Mesmo o nível de reparação do DNA desse peixe cavernícola está sendo alterado nesse ambiente.”

Sobre a relação disso com a história dos mamíferos, Foulkes argumenta que isso demonstra que no mínimo um outro organismo está perdendo sua capacidade de fotorreativação após diversas gerações terem passado muito tempo no escuro.

 

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E aqui temos um peixe paulistinha.

 

O mundo perdido

Podemos estar testemunhando o peixe cavernícola refazer o processo percorrido pelos mamíferos há muitos anos, afirma Roelof Hut, biólogo evolucionário da Universidade de Groningen, nos Países Baixos, que analisou o novo estudo.

“Esta é uma daquelas oportunidades únicas em que processos biológicos atuais ou recentes nos permitem dar uma espiada em um passado muito mais remoto”, conta.

Contudo, Hut observa que, embora a pesquisa acrescente indícios de que os mamíferos passaram por um gargalo noturno, não há prova definitiva de que os mamíferos placentários perderam a fotorreativação do mesmo jeito que o peixe cavernícola.

Peixes cavernícolas também não são a melhor comparação com mamíferos, ironiza Roi Maor, biólogo evolucionário da Universidade de Tel Aviv, em Israel.

“O peixe cavernícola aqui estudado está isolado há três milhões de anos”, diz Maor, “ao passo que o gargalo noturno a que nos referimos possui no mínimo 100 milhões anos. Então é um período completamente diferente.”

Maor explica ainda que, apesar de a maioria dos mamíferos primitivos ter sido noturna, é provável que tenham contemplado a luz solar de vez em quando. Afinal de contas, não estavam aprisionados em uma caverna.

Entretanto, o mais interessante de tudo, prossegue Maor, é o fato de mamíferos marsupiais ainda conservarem seus genes de fotorreativação, apesar de seus ancestrais terem vivido no mesmo mundo aterrorizante dominado pelos dinossauros. Essa seria uma linha de pesquisa muito interessante para alguém dar continuidade”, conta.

 

Fonte: National Geographic

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