Um dia todos os planetas vão se alinhar?

Será possível, Brasil?

Quem é fã de ficção científica já deve ter lido ou assistido algo sobre o lendário alinhamento dos planetas. Nos contos sempre que isso acontece algo extremamente desagradável vem logo em sequência (geralmente a destruição da Terra).

Mas desconsiderando os mitos da ficção, a pergunta fica no ar: É possível que todos os 8 planetas do nosso sistema se alinhem de fato?

E se for possível, isso realmente poderia ter alguma consequência aqui na Terra? Vamos ver!

É possível acontecer um alinhamento total de planetas?

Antes de mais nada temos que definir o que será usado como significado de”alinhamento”, já que a palavra pode significar muita coisa. Vamos usar a definição de que algum dos planetas, ou o sol, tem que estar sendo atravessado por uma linha reta infinita. Aqueles planetas que estiverem tocando nesta linha reta estariam, portanto, “alinhados”. Algo diferente disso será informado na situação que ocorrer.

Pois bem, agora sim! Pra destruir a emoção de todos, a resposta mais aguardada: embora fosse lindo de ver um alinhamento completo, isso nunca vai acontecer. Não tem como!

O fator mais gritante e que pode desmontar qualquer chance disso é bem fácil de entender: órbitas. Todo planeta tem uma órbita ao redor do sol, cada qual com seu tempo de duração. E é esse tempo para fazer uma volta completa no sol que faz toda a diferença.

Detalhe: E nem vamos considerar Plutão (que é agora um planeta anão) e não entra mais na conta dos “planetas alinháveis”, senão teríamos outro problema. Se Plutão contasse a coisa ficaria ainda mais complicada já que sua órbita não é bastante inclinada, o que dificultaria (ou impossibilitaria) seu alinhamento.

Mas tudo bem. Voltando ao tempo que levaria para uma conjunção completa, a matemática mostra as chances baixíssimas do fenômeno. Como dito antes, por cada planeta ter um caminho a percorrer em torno do sol diferente dos demais e girar em torno do sol também numa velocidade diferente, para que os 8 se encaixassem em um alinhamento demoraria uma quantidade absurda de tempo. E você com certeza não estará aqui pra ver (nem eu).

Urano, por exemplo, demora 84 anos para dar a volta no sol e Netuno mais do que o dobro: 165 anos. Assim, quando Netuno chegasse em um ponto específico e estivesse alinhado com Marte, por exemplo, teria que dar o acaso de Urano estar ali também (o que não ocorre com frequência já que sua volta completa no sol demora mais de 8 décadas). Se a oportunidade se perder, precisará começar tudo de novo.

Tempo que os planetas levam para completar uma volta no sol em escala

Aqui em cima tem o tempo que os planetas levam para completar uma volta ao redor no sol, em escala. Só por essa imagem já podemos ver a velocidade diferente e imaginar o quão complicado seria um alinhamento.

Por conta disso e de outro motivo (pior ainda) é que foi dito que somente em teoria o alinhamento poderia acontecer, mas não na prática. E esse segundo motivo é tudo por culpa do sol, que morreria antes do tempo calculado para o alinhamento acontecer, levando junto com ele todas as chances de um espetáculo do alinhamento. Nosso sol tem cerca de 4.6 bilhões de anos e já é um senhor de meia idade. Os cientistas acreditam que ele vá viver ainda mais uns 5 bilhões de anos, quando irá ficar sem combustível para queimar (hidrogênio) e irá começar a queimar hélio e se tornar uma Gigante Vermelha (nosso sol não é grande o suficiente para virar um buraco negro).

Quando isso acontecer ele irá se expandir rapidamente, engolindo as órbitas de Mercúrio, Vênus e talvez até a Terra. Assim, antes que um alinhamento de 8 planetas pudesse acontecer, pelo menos 2 ou 3 planetas deles seriam destruídos.

Mas se um alinhamento de 8 planetas é impossível, ainda assim dá para calcularmos quanto tempo demoraria para os casos mais simples ou então para uns “pseudo” alinhamentos. E foi isso mesmo que fez o astrônomo Jean Meeus; segundo os cálculos dele, se tirarmos Plutão (que na época do estudo ainda era um planeta normal), o mais próximo de um alinhamento total ocorreu em 1128 quando os 8 corpos celestes ficaram em um mesmo espaço de cerca de 40° de abertura. O próximo encontro dos 8 vizinhos será em 2161 (69° de abertura) e 2176 (78° de abertura). Ou seja, com estes graus de abertura o máximo que se consegue garantir é que eles vão estar visíveis em um mesmo céu noturno, mas mesmo assim bastante longe um dos outros para caracterizar um alinhamento, uma verdadeira gambiarra.

O alinhamento abaixo foi simulado por este site (e você pode simular também) e tem uma aproximação de cerca de 30º. Ele representa o que pôde ser visto em 1128 e, caso você queira simulá-lo, basta colocar “1128-04-11 0:00:00” (a data em formato americano, no caso) no campo de busca do site.

Conjunção de 1128

Lembra que dissemos que uma conjunção total ficou bem mais fácil depois que Plutão deixou de ser “planeta”? Veja a conta com 9 planetas: segundo Meeus, o alcance máximo de alinhamento com esse número foi alcançada no ano de 949 com uma abertura de 90º, mesma aproximação recorde que só voltará a ocorrer em 2492. Um intervalo de mais de 1500 anos para um “alinhamento” (bem torto) máximo.

Mas certamente você já ouviu falar em algum alinhamento menor. Isso porque alinhar 4 planetas (contando com a Terra) é bastante comum, ocorrendo a cada 2 anos, mais ou menos. Em 2015, por exemplo, Urano ficou alinhado com a Terra, às nossas “costas”, e mais alguns planetas foram junto.

Alinhamento dos planetas de 2015Alinhamento dos planetas em 2015

Mas se o alinhamento de 4 planetas é fácil, incremente o número de itens a alinhar e a raridade vai aumentando exponencialmente. Com 5 planetas, ele acontece em um intervalo de décadas a séculos, 6 planetas a cada muitos séculos, já com 7 ou 8…. Você entendeu o tamanho do problema né?

É bem provável que nunca tenhamos tido um alinhamento de mais de 6 planetas, desde a formação do sistema solar até os dias de hoje.

Se quisermos ir mais a fundo na questão da impossibilidade do alinhamento, tem a Teoria da Relatividade Geral de Einstein, que também ajuda a explicar que isso nunca ocorrerá. Segundo ela, podemos concluir que o espaço não é um “espaço euclidiano” 2D, ou seja, ele sofre com a gravidade do sol e dos demais corpos nas 3 dimensões, o que impossibilitaria aquela tal linha imaginária e reta através do sol ou da Terra que falamos no começo.

Alinhamento de 2011 visto da AustráliaAlinhamento de 2011 visto da Austrália

Mas e se um alinhamento completo acontecesse?

Digamos que nós somos teimosos e insistimos no fato de que em algum momento o alinhamento vai ocorrer. Neste caso, quais seriam as consequências diretas na Terra?

Mais uma vez, desapontando a ficção científica, as consequências seriam minúsculas ou nulas. O que aconteceria, por exemplo, seria que o centro de massa do sistema solar se deslocaria um pouquinho pro lado. Ele mudaria de 7% do raio solar em relação à sua superfície para algo como 7,6%.

Embora os autores de ficção e pseudociência gostem de imaginar que um alinhamento planetário resultaria em uma união dos campos gravitacionais dos planetas e com essa união viessem os maremotos, terremotos, inundações, tornados, pragas, extinções em massa ou qualquer outra forma de desgraça, isso não vai rolar. Na verdade, existem apenas dois objetos do sistema solar com gravidade suficiente para afetar significativamente a Terra: a lua e o sol. E eles já estão fazendo isto neste exato momento.

A gravidade do sol é enorme por esse astro ser algo incrivelmente maciço. Sozinho, ele responde por 99,86% de toda a massa do Sistema Solar inteirinho ou cerca de 330 mil vezes a massa da Terra. Já a gravidade da lua se explica pela sua proximidade com o nosso planeta, e não pelo tamanho diminuto.

Catástrofes ficam somente na ficção mesmo

Outra coisa é que, mesmo que os 8 planetas e o sol ficassem em uma linha reta, nada mudaria já que os nossos vizinhos ficariam à mesma distância de sempre, logo a mesma gravidade será exercida sobre a Terra. Vênus está a 261 milhões de quilômetros de um lado e Marte a 225 milhões de quilômetros de outro, por exemplo.

O último alinhamento máximo que tivemos

Talvez você se lembre do último alinhamento máximo que vivenciamos daqui na Terra. Aconteceu em 2002 e “alinhou” Mercúrio, Vênus, Marte, Saturno e Júpiter, além da Terra em si. “Alinhou” entre aspas mesmo, pois Júpiter, embora alinhado na imagem, não está alinhado na disposição planetária como pode ser visto na comparação ali embaixo. Isso acontece por conta do ângulo de abertura que pode causar uma ilusão de ótica.

Detalhando melhor a tal ilusão: Imagine uma folha de papel recortada em formato de um círculo. Se você olhar para o círculo de cima, você vê um círculo. Se você olhar para ele de um determinado ângulo, verá uma elipse, e se você colocar o círculo ao seu lado, na altura dos olhos, ela irá ver apenas uma linha. A Terra está no mesmo plano que os outros planetas, então todos os planetas parecem estar se movendo em uma linha. Isso significa que as posições dos planetas no céu “sempre” estarão em uma linha, mesmo quando não houver alinhamento.

O plano da eclíptica parece uma linha, porque a Terra está no seu plano. No entanto, quando há um alinhamento com a Terra (como ocorreu em 2002), os planetas parecerão não apenas na linha da eclíptica, mas bastante próximos no céu.

Alinhamento de 5 planetas de 2002Alinhamento de 5 planetas de 2002

Por isso, mesmo que tenham sido só 5 planetas alinhados mais um que “parecia alinhado”, tomamos a liberdade de colocá-lo como o último alinhamento máximo que tivemos (mesmo que em 2011 também tenhamos tido um outro de 5 planetas, só que sem o adendo de um sexto planeta em um falso alinhamento). Esse de 2002 ocorreu em fins de abril e o fenômeno ficou visível por cerca de 3 semanas no céu noturno do hemisfério norte.

Um alinhamento com estes planetas (mais ou menos alinhados, na verdade) havia acontecido em maio de 2000, porém havia um sol entre nós, o que impossibilitou que o fenômeno fosse visto daqui da Terra (até a NASA anunciou o fenômeno). Os próximos alinhamentos dos 5 planetas se darão em 8 de setembro de 2040 e julho de 2060 e depois em novembro de 2100, sendo em nenhum dos casos tão visíveis como a de 2002. A próxima conjunção de 5 planetas que ficará tão próxima como essa, somente em 2675.

Fonte: Oficina da Net

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